Por Vera Rosa e Christiane Samarco, de O Estado de S. Paulo, estadao.com.br
Atualizado: 25/5/2011 21:08
Lula relata a Palocci insatisfação de aliados
BRASÍLIA - Preocupado com as insatisfações e ameaças da base governista no Congresso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu nesta quarta-feira, 25, a senha da operação destinada a abafar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o patrimônio do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Em conversa reservada com Palocci, na terça-feira, 24, Lula foi taxativo: avisou que ou o ministro atendia os parlamentares ou até aliados poderiam endossar uma CPI no Senado, encurralando o Planalto.
O ex-presidente relatou o diálogo que teve com Palocci durante café da manhã com dez líderes de partidos aliados do governo, nesta quarta, na casa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). 'Você tome cuidado porque sua situação no Congresso não é boa. Todo mundo está insatisfeito com sua conduta', disse Lula a Palocci, de acordo com relatos de senadores.
Na tentativa de evitar a CPI, Palocci passou a telefonar para os senadores e pedir apoio. Disse estar sendo vítima de uma 'campanha de difamação' e se prontificou a marcar conversas privadas com os parlamentares, para esclarecer as denúncias que pesam contra ele.
Lula jantou com a presidente Dilma Rousseff, Palocci, Gilberto Carvalho (ministro da Secretaria-Geral da Presidência), Miriam Belchior (Planejamento) e com seu assessor Luiz Dulci, na terça-feira, no Palácio da Alvorada. Cobrou de Dilma e Palocci mudanças urgentes na articulação política do governo, disse que era preciso atender os aliados na montagem do segundo escalão e acenou com um cenário nada animador. Para Lula, se o governo não agir rápido para conter os dissidentes da base aliada e estancar a crise, a CPI no Senado pode sair.
Queixas. Na manhã de terça-feira, um dia depois de almoçar com senadores do PT, o ex-presidente ouviu mais queixas dos líderes da base aliada - do PMDB ao PTB, passando pelo PR e PP- e assumiu as rédeas da coordenação política do governo. Em tom de apelo, Lula pediu um 'voto de confiança' em Palocci e, mais uma vez, tentou contornar a crise política, sob o argumento de que o alvo da oposição é o governo Dilma.
'Palocci é o homem que prestou muitos serviços ao nosso governo e não podemos desampará-lo', disse o ex-presidente. Enquanto o café era servido, com pastel de queijo e bolo de aipim, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR) 'monitorava' o andamento das comissões no Senado, pelo celular, na tentativa de barrar qualquer pedido de convocação de Palocci.
Seguindo os conselhos de Lula, o ministro da Casa Civil também passou a telefonar para os senadores. Acusado de aumentar seu patrimônio em 20 vezes nos últimos quatro anos e de fazer tráfico de influência por meio da empresa de consultoria Projeto, Palocci intensificou a ofensiva para impedir a CPI.
O senador Magno Malta (PR-ES) foi um dos procurados, mas não atendeu o telefonema de Palocci. 'Quando a crise pega, esse pessoal do governo fica humildezinho, mas comigo não. Palocci precisa aprender com esse episódio. A arrogância precede a ruína', disse Malta.
Sinal amarelo. Palocci também ligou para o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), em busca de apoio para conter a ala descontente do PMDB. Quem avisou o Palácio do Planalto de que o sinal amarelo já estava aceso no PMDB foi o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). O petista advertiu que Sarney e o líder peemedebista Renan Calheiros (AL) não têm o controle da bancada por conta de um movimento de descontentes que, nas contas do PT, soma 9 dos 18 senadores do partido.
'Lula tem razão: se esse grupo não for bem articulado, a CPI pode sair no Senado', aconselhou Lindberg. Palocci agiu rápido. Começou por um dos mais influentes senadores do chamado 'PMDB contrariado', aproveitando-se da boa relação construída nos tempos em que Braga era governador do Amazonas.
O discurso de Palocci está centrado no prazo de 15 dias que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, concedeu a ele para dar as informações necessárias ao esclarecimento do caso.
Irritado com a falta de interlocução com o governo, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) lembrou que há dois meses vem pedindo uma audiência com o chefe da Casa Civil, sem nunca ter obtido nenhuma resposta. 'Temos sido ignorados. Estamos no limite da insignificância', queixou-se ontem o capixaba, que engrossa a lista dos insatisfeitos.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DA COMUNICAÇÃO
Enviei, na manhã de hoje (23/05) o email abaixo à direção da Rede Vitoriosa de Comunicação:
"Para: Fernando Garcia
fernandogarcia@redevitoriosa.com.br
Rede Vitoriosa de Comunicação
Prezado Fernando Garcia
Com surpresa e pesar, soube neste final de semana da exclusão do programa Salada Mista da grade de programação da Rádio Vitoriosa Araguari.
Sem questionar a estratégia de gestão da empresa, como apreciador do programa apresento minhas considerações:
1- O programa Salada Mista conquistou espaço, por méritos próprios, como líder de audiência no horário, tornando-se referência para enriquecer o debate sócio-econômico-cultural-político da cidade e região;
2- Por consequência, imagina-se ter o programa forte apelo comercial para anunciantes, cuja visibilidade e penetração são garantidos;
3- O programa se tornou uma tribuna livre para a discussão de idéias, o cerne do Estado Democrático de Direito, dando espaço a todas as nuances da dialética local;
4- Com o eventual encerramento do programa, pela sua linha editorial perde Araguari, perdem os cidadãos e perde a democracia.
Manifesto meu desejo de que a direção da Rede Vitoriosa reveja sua estratégia e mantenha no ar o programa.
Respeitosamente,
Edilvo Mota
Contador, professor universitário nos cursos de Administração de Empresas,
Farmácia, Nutrição e Enfermagem
Ex-secretário municipal de saúde em Araguari"
PS:
Independente de nomes ou preferências pessoais, sempre é preciso manifestar em defesa do espaço democrático e da livre manifestação.
"Primeiro levaram os judeus,
Mas não falei, por não ser judeu.
Depois, perseguiram os comunistas,
Nada disse então, por não ser comunista,
Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir." [Poema de Martin Niemoller]
"No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos."
"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
Martin Luther King
Quem já foi vítima de injustiças e sofreu isolado, entende perfeitamente o sentido das frases acima...
"Para: Fernando Garcia
fernandogarcia@redevitoriosa.com.br
Rede Vitoriosa de Comunicação
Prezado Fernando Garcia
Com surpresa e pesar, soube neste final de semana da exclusão do programa Salada Mista da grade de programação da Rádio Vitoriosa Araguari.
Sem questionar a estratégia de gestão da empresa, como apreciador do programa apresento minhas considerações:
1- O programa Salada Mista conquistou espaço, por méritos próprios, como líder de audiência no horário, tornando-se referência para enriquecer o debate sócio-econômico-cultural-político da cidade e região;
2- Por consequência, imagina-se ter o programa forte apelo comercial para anunciantes, cuja visibilidade e penetração são garantidos;
3- O programa se tornou uma tribuna livre para a discussão de idéias, o cerne do Estado Democrático de Direito, dando espaço a todas as nuances da dialética local;
4- Com o eventual encerramento do programa, pela sua linha editorial perde Araguari, perdem os cidadãos e perde a democracia.
Manifesto meu desejo de que a direção da Rede Vitoriosa reveja sua estratégia e mantenha no ar o programa.
Respeitosamente,
Edilvo Mota
Contador, professor universitário nos cursos de Administração de Empresas,
Farmácia, Nutrição e Enfermagem
Ex-secretário municipal de saúde em Araguari"
PS:
Independente de nomes ou preferências pessoais, sempre é preciso manifestar em defesa do espaço democrático e da livre manifestação.
"Primeiro levaram os judeus,
Mas não falei, por não ser judeu.
Depois, perseguiram os comunistas,
Nada disse então, por não ser comunista,
Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir." [Poema de Martin Niemoller]
"No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos."
"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
Martin Luther King
Quem já foi vítima de injustiças e sofreu isolado, entende perfeitamente o sentido das frases acima...
domingo, 22 de maio de 2011
Saúde na Tela: A reinvenção das cidades
Saúde na Tela: A reinvenção das cidades: "A reinvenção das cidades Ana Lagôa * Os deslizamentos e enchentes que atingiram a Região Serrana fluminense em 12 de janeiro deste ano ..."
A reinvenção das cidades
A reinvenção das cidades
Ana Lagôa *
Os deslizamentos e enchentes que atingiram a Região Serrana fluminense em 12 de janeiro deste ano quebraram paradigmas importantes no campo da geologia, da climatologia e da sociologia das catástrofes. Reunidos em Teresópolis, nos dias 26 e 27 de fevereiro, pesquisadores e representantes da sociedade civil das sete cidades atingidas fizeram do 1º Fórum Nacional de Prevenção e Gerenciamento em Eventos Extremos um marco ao redigirem a Carta de Teresópolis.
Resumo das principais apresentações, a carta traz demandas a partir de algumas conclusões: as tempestades do tipo da que arrasou 50 quilômetros de encostas serranas serão cada vez mais fortes e mais frequentes; nem a população, nem os gestores públicos estão preparados para tal impacto e urge que as prefeituras estabeleçam um plano emergencial adequado aos novos padrões climáticos, dando atenção especial à forma de ocupação do solo, aos alertas de tempestades e ao treinamento adequado da população civil.
Organizado pelo Centro de Ecologia Aplicada de Teresópolis (Ceat), com apoio de empresários da cidade, o fórum — que ganhou caráter permanente — possibilitou a troca de experiências com gestores de outras cidades que passam por problemas semelhantes. João Paulo Kleinubing, prefeito de Blumenau (SC), tornou-se referência para as propostas surgidas durante o encontro, no sentido de se trabalhar, não apenas pela reconstrução do que foi destruído pelas águas, mas pela reinvenção das cidades, em outras bases arquitetônicas, ambientais e urbanísticas, respeitando-se as características naturais e removendo efetivamente as populações das áreas de risco.
Outro ponto importante do encontro foi a valorização das pesquisas acadêmicas pelas autoridades que administram as cidades. “As parcerias são indispensáveis para que os governantes tomem decisões em cima de dados corretos e não apenas a partir de percepções de risco que nem sempre correspondem à realidade”, afirmou Kleinubing, depois de visitar os pontos mais dramáticos de Teresópolis e também outras cidades da região.
Na Saúde, representantes da área médica dos principais hospitais da cidade se mostraram preocupados com as possíveis epidemias, sobretudo da leptospirose, já que os sobreviventes — por conta própria ou resgatados — tiveram que atravessar zonas cobertas de lama, muitas vezes mergulhando até a altura do peito. O professor e médico sanitarista Luiz Guilherme Peixoto do Nascimento, epidemiologista da rede pública de saúde, explicou detalhadamente as causas e a evolução da doença, mas garantiu que a rede está preparada para atender a população.
“A Carta de Teresópolis se tornou o documento-base para os próximos encontros do fórum e para a edição da Cartilha dos Eventos Extremos”, afirma o presidente do Ceat, o médico Augusto Braga. “A viabilidade da proposta, que vai muito além das ações emergenciais de praxe, vem sendo discutida também com representantes da sociedade civil das outras cidades serranas e será entregue aos seus administradores”. A Carta será levada também para debate entre estudantes, tanto nas universidades como nos níveis médio e fundamental.
A Carta de Teresópolis reforça a necessidade de maior proximidade entre os interesses públicos e privados, tendo em vista que — não só em Teresópolis, mas também em grande parte dos municípios brasileiros — a vida humana está sendo relegada em favor de investimentos que visam o lucro e a especulação. É importante destacar, ainda, que as demandas listadas no documento dão novo sentido à relação do homem com o meio ambiente, superando definitivamente a visão ingênua que, por longos anos, impregnou o discurso verde. A realidade, dura e crua, da destruição avassaladora que as populações serranas fluminenses seguem vivendo (embora a grande imprensa tenha esquecido o assunto) certamente é um marco histórico, tanto por estar quebrando paradigmas da geologia e da climatologia, como por estar impondo novas atitudes, tanto da sociedade civil, como do poder público, sob o risco de se ter comprometido o futuro de várias gerações de serranos.
Ou seja: é premente que se façam mudanças amplas e profundas nas políticas de ocupação do solo, de gestão de crise e de educação ambiental. Fechar os olhos para isso é esquecer que somos o lado frágil do embate homem-natureza; é preparar terreno fácil para que as próximas tempestades se transformem novamente em catástrofes.
* Ana Lagôa é voluntária do Centro de Ecologia Aplicada de Teresópolis, jornalista e coordenadora do Núcleo de Estudos de Comunicação e Educação (Nece).
Ver a íntegra da Carta de Teresópolis em www.ecoaplicada.com e em www.ensp.fiocruz.br/radis.
Ana Lagôa *
Os deslizamentos e enchentes que atingiram a Região Serrana fluminense em 12 de janeiro deste ano quebraram paradigmas importantes no campo da geologia, da climatologia e da sociologia das catástrofes. Reunidos em Teresópolis, nos dias 26 e 27 de fevereiro, pesquisadores e representantes da sociedade civil das sete cidades atingidas fizeram do 1º Fórum Nacional de Prevenção e Gerenciamento em Eventos Extremos um marco ao redigirem a Carta de Teresópolis.
Crédito da foto:
(A ironia da foto fica por conta das bandeirolas do Brasil, penduradas na parede da casa nº 18)Resumo das principais apresentações, a carta traz demandas a partir de algumas conclusões: as tempestades do tipo da que arrasou 50 quilômetros de encostas serranas serão cada vez mais fortes e mais frequentes; nem a população, nem os gestores públicos estão preparados para tal impacto e urge que as prefeituras estabeleçam um plano emergencial adequado aos novos padrões climáticos, dando atenção especial à forma de ocupação do solo, aos alertas de tempestades e ao treinamento adequado da população civil.
Organizado pelo Centro de Ecologia Aplicada de Teresópolis (Ceat), com apoio de empresários da cidade, o fórum — que ganhou caráter permanente — possibilitou a troca de experiências com gestores de outras cidades que passam por problemas semelhantes. João Paulo Kleinubing, prefeito de Blumenau (SC), tornou-se referência para as propostas surgidas durante o encontro, no sentido de se trabalhar, não apenas pela reconstrução do que foi destruído pelas águas, mas pela reinvenção das cidades, em outras bases arquitetônicas, ambientais e urbanísticas, respeitando-se as características naturais e removendo efetivamente as populações das áreas de risco.
Outro ponto importante do encontro foi a valorização das pesquisas acadêmicas pelas autoridades que administram as cidades. “As parcerias são indispensáveis para que os governantes tomem decisões em cima de dados corretos e não apenas a partir de percepções de risco que nem sempre correspondem à realidade”, afirmou Kleinubing, depois de visitar os pontos mais dramáticos de Teresópolis e também outras cidades da região.
Na Saúde, representantes da área médica dos principais hospitais da cidade se mostraram preocupados com as possíveis epidemias, sobretudo da leptospirose, já que os sobreviventes — por conta própria ou resgatados — tiveram que atravessar zonas cobertas de lama, muitas vezes mergulhando até a altura do peito. O professor e médico sanitarista Luiz Guilherme Peixoto do Nascimento, epidemiologista da rede pública de saúde, explicou detalhadamente as causas e a evolução da doença, mas garantiu que a rede está preparada para atender a população.
“A Carta de Teresópolis se tornou o documento-base para os próximos encontros do fórum e para a edição da Cartilha dos Eventos Extremos”, afirma o presidente do Ceat, o médico Augusto Braga. “A viabilidade da proposta, que vai muito além das ações emergenciais de praxe, vem sendo discutida também com representantes da sociedade civil das outras cidades serranas e será entregue aos seus administradores”. A Carta será levada também para debate entre estudantes, tanto nas universidades como nos níveis médio e fundamental.
A Carta de Teresópolis reforça a necessidade de maior proximidade entre os interesses públicos e privados, tendo em vista que — não só em Teresópolis, mas também em grande parte dos municípios brasileiros — a vida humana está sendo relegada em favor de investimentos que visam o lucro e a especulação. É importante destacar, ainda, que as demandas listadas no documento dão novo sentido à relação do homem com o meio ambiente, superando definitivamente a visão ingênua que, por longos anos, impregnou o discurso verde. A realidade, dura e crua, da destruição avassaladora que as populações serranas fluminenses seguem vivendo (embora a grande imprensa tenha esquecido o assunto) certamente é um marco histórico, tanto por estar quebrando paradigmas da geologia e da climatologia, como por estar impondo novas atitudes, tanto da sociedade civil, como do poder público, sob o risco de se ter comprometido o futuro de várias gerações de serranos.
Ou seja: é premente que se façam mudanças amplas e profundas nas políticas de ocupação do solo, de gestão de crise e de educação ambiental. Fechar os olhos para isso é esquecer que somos o lado frágil do embate homem-natureza; é preparar terreno fácil para que as próximas tempestades se transformem novamente em catástrofes.
* Ana Lagôa é voluntária do Centro de Ecologia Aplicada de Teresópolis, jornalista e coordenadora do Núcleo de Estudos de Comunicação e Educação (Nece).
Ver a íntegra da Carta de Teresópolis em www.ecoaplicada.com e em www.ensp.fiocruz.br/radis.
sábado, 21 de maio de 2011
DOENÇAS NEGLIGENCIADAS
Carlos Medicis Morel*
Artigo discorre sobre o círculo infernal das chamadas doenças negligenciadas
Desde que a Fundação Rockefeller lançou, nas décadas de 70/80, o programa The Great Neglected Diseases of Mankind (As Grandes Doenças Negligenciadas da Humanidade), o conceito "doenças negligenciadas" vem evoluindo e sofrendo mudanças - às vezes graduais ou incrementais, às vezes radicais e transformadoras. Para Ken Warren, então diretor do programa, enfermidades como esquistossomose, doença de Chagas e malária eram negligenciadas porque não recebiam recursos suficientes para a pesquisa biomédica, o que geraria falta de conhecimentos e informações para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e diagnósticos.
Esta constatação levou à criação, pelo setor público, de programas destinados a financiar e estimular pesquisas sobre estas doenças, também conhecidas como doenças tropicais ou, ainda, doenças tropicais negligenciadas. Como exemplos marcantes destes programas podemos citar, no Brasil, o Programa Integrado de Doenças Endêmicas (Pide), do CNPq, ativo de 1973 a 1986 e, em nível internacional, o Programa de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (denominado TDR, de Tropical Diseases Research), criado em 1975, com sede na Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra e co-patrocinado por PNUD, Unicef, Banco Mundial e a própria OMS, e atuante até os dias de hoje.
No limiar do novo milênio, os Médicos Sem Fronteira, ao ganharem o Nobel da Paz em 1999, decidiram investir os recursos deste prêmio na criação de uma nova entidade, a Drugs for Neglected Diseases Initiative (DNDi, Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas). A DNDi, inaugurada em 2003, teve como fundadores os Médicos Sem Fronteira, o Instituto Pasteur de Paris, a Fiocruz, o Instituto de Pesquisas Médicas do Quênia (KEMRI), o Conselho para Pesquisas Médicas da Índia (ICMR) e o Ministério da Saúde da Malásia.
Sua visão está baseada em um outro conceito: o de que estas doenças tropicais são negligenciadas pelas grandes multinacionais farmacêuticas, mais atentas aos mercados dos países ricos e portanto mais preocupadas com câncer, diabetes, hipertensão, disfunção erétil. Segundo a campanha Acesso a Medicamentos, dos Médicos Sem Fronteira, só estas doenças "globais" estariam no radar da "Big Pharma", ficando então estagnado o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas contra as doenças que rotularam de "negligenciadas" (incidentes globalmente, como a tuberculose, mas muito mais prevalentes nos países em desenvolvimento) e de "mais negligenciadas" (existentes apenas nos países com baixo índice de desenvolvimento, como a doença do sono na África e a doença de Chagas na América Latina).
Em 2001, um grupo de economistas convocados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório Macroeconomia e Saúde, que não só corroborou os estudos dos Médicos Sem Fronteira, rotulando de doenças tipo 1, 2 e 3 as categorias Globais, Negligenciadas e Mais Negligenciadas, como introduziu um significativo avanço na maneira de ver as relações entre saúde e desenvolvimento econômico e social.
Saúde, para os economistas ortodoxos, é apenas uma consequência do desenvolvimento econômico; já para os autores daquele relatório a saúde é também um requisito fundamental para o desenvolvimento econômico e social. Esta nova visão, contudo, permaneceu restrita ao (pequeno) público conhecedor do relatório, já que a própria OMS continuou a lidar com as doenças negligenciadas apenas como resultantes de baixos níveis de desenvolvimento de alguns países, e não como corresponsáveis por este subdesenvolvimento.
Uma mudança conceitual radical e de potencial ainda não totalmente explorado é defendida por uma revista científica especializada em doenças negligenciadas, a Neglected Tropical Diseases (NTD), uma das revistas integrantes da coleção Public Library of Sciences (PLoS), periódicos eletrônicos de acesso aberto editados pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) nos Estados Unidos. Segundo esta revista, conhecida como PLoS-NTD, as doenças negligenciadas são, na realidade, doenças promotoras da pobreza, pois aprisionam os pacientes, populações e países em um círculo infernal: adultos enfermos faltam ao trabalho ou não conseguem emprego, levando famílias a enfrentarem imensos problemas financeiros; as crianças, se sobreviventes a estas enfermidades ceifadoras de vidas, terminam por apresentar baixo rendimento escolar e atrasos no crescimento. Recente trabalho da equipe do médico Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, mostrando o baixo rendimento escolar em português e matemática de crianças do município de Careiro, a 112 km de Manaus, quando afetadas pela malária do tipo vivax, corroboram de maneira dramática esta estratégica mudança conceitual.
A presidente Dilma Rousseff tem, repetidamente, colocado a eliminação da miséria como prioridade número um de seu governo. Pesquisa feita pelo Datafolha em oito unidades da Federação, em dezembro, mostra que em seis (Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo) a saúde é citada pela população como a preocupação maior. É hora, portanto, de nossos economistas, políticos, gestores e tomadores de decisões, em particular aqueles com voz ativa neste novo governo, se conscientizarem que as estratégias atuais para a eliminação da miséria devem levar em conta esta nova visão: a saúde como dos mais importantes requisitos para o desenvolvimento econômico e social e o combate às doenças tropicais negligenciadas como prioridade sanitária, pois atuam como verdadeiras promotoras de pobreza.
*Carlos Medicis Morel é membro-titular da Academia Brasileira de Ciências, pesquisador sênior e ex-presidente da Fiocruz e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED) do Instituto de Economia da UFRJ. E-mail: morel@fiocruz.br
AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS: Publicado em 2/2/2011 (texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico em 1º de fevereiro de 2011).
COMENTÁRIO DO BLOG: Historicamente, os governantes têm relegado a saúde coletiva ao ostracismo, ao desconsiderar as políticas de saúde nos planos de governo maltraçados e imediatistas.
Promoção da saúde e prevenção contra doenças deveriam ser prioridades, na escala de valores de qualquer projeto estratégico de médio e longo prazo. Saúde não se reduz a plano de governo; antes de tudo, deveria ser política de Estado.
Artigo discorre sobre o círculo infernal das chamadas doenças negligenciadas
Desde que a Fundação Rockefeller lançou, nas décadas de 70/80, o programa The Great Neglected Diseases of Mankind (As Grandes Doenças Negligenciadas da Humanidade), o conceito "doenças negligenciadas" vem evoluindo e sofrendo mudanças - às vezes graduais ou incrementais, às vezes radicais e transformadoras. Para Ken Warren, então diretor do programa, enfermidades como esquistossomose, doença de Chagas e malária eram negligenciadas porque não recebiam recursos suficientes para a pesquisa biomédica, o que geraria falta de conhecimentos e informações para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e diagnósticos.
As doenças negligenciadas atingem sobretudo países em desenvolvimento,
com precária qualidade de vida (Foto: Gutemberg Brito)
Esta constatação levou à criação, pelo setor público, de programas destinados a financiar e estimular pesquisas sobre estas doenças, também conhecidas como doenças tropicais ou, ainda, doenças tropicais negligenciadas. Como exemplos marcantes destes programas podemos citar, no Brasil, o Programa Integrado de Doenças Endêmicas (Pide), do CNPq, ativo de 1973 a 1986 e, em nível internacional, o Programa de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (denominado TDR, de Tropical Diseases Research), criado em 1975, com sede na Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra e co-patrocinado por PNUD, Unicef, Banco Mundial e a própria OMS, e atuante até os dias de hoje.
No limiar do novo milênio, os Médicos Sem Fronteira, ao ganharem o Nobel da Paz em 1999, decidiram investir os recursos deste prêmio na criação de uma nova entidade, a Drugs for Neglected Diseases Initiative (DNDi, Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas). A DNDi, inaugurada em 2003, teve como fundadores os Médicos Sem Fronteira, o Instituto Pasteur de Paris, a Fiocruz, o Instituto de Pesquisas Médicas do Quênia (KEMRI), o Conselho para Pesquisas Médicas da Índia (ICMR) e o Ministério da Saúde da Malásia.
Sua visão está baseada em um outro conceito: o de que estas doenças tropicais são negligenciadas pelas grandes multinacionais farmacêuticas, mais atentas aos mercados dos países ricos e portanto mais preocupadas com câncer, diabetes, hipertensão, disfunção erétil. Segundo a campanha Acesso a Medicamentos, dos Médicos Sem Fronteira, só estas doenças "globais" estariam no radar da "Big Pharma", ficando então estagnado o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas contra as doenças que rotularam de "negligenciadas" (incidentes globalmente, como a tuberculose, mas muito mais prevalentes nos países em desenvolvimento) e de "mais negligenciadas" (existentes apenas nos países com baixo índice de desenvolvimento, como a doença do sono na África e a doença de Chagas na América Latina).
Em 2001, um grupo de economistas convocados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório Macroeconomia e Saúde, que não só corroborou os estudos dos Médicos Sem Fronteira, rotulando de doenças tipo 1, 2 e 3 as categorias Globais, Negligenciadas e Mais Negligenciadas, como introduziu um significativo avanço na maneira de ver as relações entre saúde e desenvolvimento econômico e social.
Saúde, para os economistas ortodoxos, é apenas uma consequência do desenvolvimento econômico; já para os autores daquele relatório a saúde é também um requisito fundamental para o desenvolvimento econômico e social. Esta nova visão, contudo, permaneceu restrita ao (pequeno) público conhecedor do relatório, já que a própria OMS continuou a lidar com as doenças negligenciadas apenas como resultantes de baixos níveis de desenvolvimento de alguns países, e não como corresponsáveis por este subdesenvolvimento.
Uma mudança conceitual radical e de potencial ainda não totalmente explorado é defendida por uma revista científica especializada em doenças negligenciadas, a Neglected Tropical Diseases (NTD), uma das revistas integrantes da coleção Public Library of Sciences (PLoS), periódicos eletrônicos de acesso aberto editados pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) nos Estados Unidos. Segundo esta revista, conhecida como PLoS-NTD, as doenças negligenciadas são, na realidade, doenças promotoras da pobreza, pois aprisionam os pacientes, populações e países em um círculo infernal: adultos enfermos faltam ao trabalho ou não conseguem emprego, levando famílias a enfrentarem imensos problemas financeiros; as crianças, se sobreviventes a estas enfermidades ceifadoras de vidas, terminam por apresentar baixo rendimento escolar e atrasos no crescimento. Recente trabalho da equipe do médico Marcus Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, mostrando o baixo rendimento escolar em português e matemática de crianças do município de Careiro, a 112 km de Manaus, quando afetadas pela malária do tipo vivax, corroboram de maneira dramática esta estratégica mudança conceitual.
A presidente Dilma Rousseff tem, repetidamente, colocado a eliminação da miséria como prioridade número um de seu governo. Pesquisa feita pelo Datafolha em oito unidades da Federação, em dezembro, mostra que em seis (Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo) a saúde é citada pela população como a preocupação maior. É hora, portanto, de nossos economistas, políticos, gestores e tomadores de decisões, em particular aqueles com voz ativa neste novo governo, se conscientizarem que as estratégias atuais para a eliminação da miséria devem levar em conta esta nova visão: a saúde como dos mais importantes requisitos para o desenvolvimento econômico e social e o combate às doenças tropicais negligenciadas como prioridade sanitária, pois atuam como verdadeiras promotoras de pobreza.
*Carlos Medicis Morel é membro-titular da Academia Brasileira de Ciências, pesquisador sênior e ex-presidente da Fiocruz e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED) do Instituto de Economia da UFRJ. E-mail: morel@fiocruz.br
AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS: Publicado em 2/2/2011 (texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico em 1º de fevereiro de 2011).
COMENTÁRIO DO BLOG: Historicamente, os governantes têm relegado a saúde coletiva ao ostracismo, ao desconsiderar as políticas de saúde nos planos de governo maltraçados e imediatistas.
Promoção da saúde e prevenção contra doenças deveriam ser prioridades, na escala de valores de qualquer projeto estratégico de médio e longo prazo. Saúde não se reduz a plano de governo; antes de tudo, deveria ser política de Estado.
terça-feira, 17 de maio de 2011
MUITO BARULHO POR NADA
(Artigo publicado na coluna "Painel", no jornal Diário de Araguari)
MUITO BARULHO POR NADA
Há poucos meses foi anunciado, de forma retumbante, que a fiscalização sobre os trios elétricos portáteis (também conhecidos com automóveis e pick-ups com som automotivo) seria ostensiva. Tanto por parte da Polícia Militar, quanto por iniciativa da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
Meses passados, a cidade continua sendo importunada pelo misto de poluição sonora e mau gosto musical, em intensidades e volumes que desafiam, além das autoridades constituídas, o sagrado direito ao silêncio e o livre-arbítrio de quem prefere não conviver com lixo sonoro.
A liberdade de expressão deve respeitar os limites do bom senso. E a ninguém é garantido o direito de importunar o silêncio e o gosto musical alheio.
Passa da hora - já passou faz tempo, aliás – de resgatar o exercício da autoridade, em nome do interesse coletivo e da saúde auditiva da população. A sociedade exige que o silêncio seja respeitado, sem prejuízo daqueles que preferem optar pelo barulho como forma de “diversão”.
Que o façam, então, longe dos nossos ouvidos.
edilvomota@hotmail.com
http://saudenatela.blogspot.com
domingo, 15 de maio de 2011
Homens, idéias e livros
HOMENS, IDÉIAS E LIVROS
(Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí...)
Matheus Ferreira, Jair José Ferreira e Edilvo Mota
No último sábado, 14/05/2011, tive a grata surpresa de encontrar meu amigo Jair José Ferreira e seu filho Matheus, na Livraria Saraiva, no Center Shopping de Uberlândia. Entre livros, confabulamos sobre negócios, estudos e política.
Jair fez carreira no Banco do Brasil, encerrando sua trajetória como gerente da agência Araguari, sua cidade natal. Convidado pelo então prefeito Marcos Alvim, ocupou as pastas das secretarias de Agricultura e Desenvolvimento, Gabinete e Governo, sempre com desembaraço e a competência que lhe são peculiares. Simultaneamente, concluiu o curso tecnólogo em Gestão em Agronegócios, na Unipac Araguari.
Atualmente, Jair assessora a diretoria da cooperativa de crédito rural Aracredi, onde também imprimiu de forma singular sua visão empreendedora. Estudioso voraz, Jair é um exemplo de dedicação e a prova de que não há limites para ampliação do conhecimento e o desbravamento de novos horizontes. Seus filhos Matheus e Aline seguem o exemplo do pai, como estudantes dedicados.
"Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar."
Antônio Frederico de Castro Alves
(Espumas Flutuantes, 1870)
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