terça-feira, 30 de março de 2010

QUANTO CUSTA A SAÚDE ?

(Artigo publicado na coluna Painel, do jornal Diário de Araguari, em 30.03.2010)

QUANTO CUSTA A SAÚDE ?


Nesses quinze anos em que convivo na gestão da saúde, nos setores privado e público, um dilema perdura: quanto custa, de fato, o sistema de saúde?


Na formação básica dos profissionais de saúde, é notória a carência de noções sobre administração, contabilidade, direito e economia. Alguns, por afinidade ou necessidade, suplementam posteriormente seus conhecimentos através de cursos de especialização. Entretanto, de forma geral, uma falha persiste nos serviços privados de saúde, notadamente em relação à estruturação dos custos e à precificação dos serviços.

Invariavelmente, as demandas por aumento de preço não se fazem acompanhar de planilhas de custos, devidamente apurados e certificados pela contabilidade das empresas. Não foi outro o motivo das polêmicas que permearam minha atuação, tanto na gestão de plano privado de saúde e as respectivas negociações com serviços credenciados, quanto na gestão da saúde pública do município com os mesmos atores.


No setor privado (leia-se planos de saúde) é recorrente a dificuldade das operadoras em fazer frente ao aumento desenfreado de seus custos (decorrentes das freqüentes imposições de aumento pelos credenciados, além da falta de adequada auditoria). Por um lado, as operadoras têm dificuldades para repassar esse aumento de custo, via cálculo atuarial, para o preço da mensalidade, haja vista o controle exercido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Em outra frente, as operadoras estruturadas como cooperativas são forçadas a estrangular os honorários dos médicos cooperados.


No setor público, a gestão municipal se vê frente a dilema semelhante. De um lado convive com o repasse insuficiente de recursos federais e estaduais, direcionados para a assistência. De outro lado, sofre a mesma pressão por aumentos constantes de remuneração, sem planilhas de custos convincentes. Não é o caso de questionar o legítimo pleito por remuneração adequada. O que permanece em jogo, sempre, é a equação entre disponibilidades, custos e preço.


Ao tentar corrigir as distorções, o gestor sofre pressões e retaliações de toda ordem. Porém, há de chegar o tempo de o setor de saúde adotar condutas economicamente corretas.


Mesmo porque, tanto o cliente (setor privado) quanto o contribuinte (setor público) são parte interessada no processo e não podem continuar pagando o preço do amadorismo.


Boa semana a todos.



edilvomota@hotmail.com

2 comentários:

Marcos disse...

Concordo com as causas apontadas para a dificuldade de se mensurar e otimizar os gastos e com saúde.
Permito-me acrescentar, embora não seja objeto do artigo, o problema ético. Refiro-me, sobretudo, à busca do lucro desenfreado por alguns profissionais de saúde e empresários do setor, que se reflete, por óbvio, nos gastos públicos e privados nessa área.
Ouso citar um exemplo, ouvido durante uma palestra sobre planos de saúde. Foi dito que certo hospital cobrava de um plano de saúde R$ 1,50 por um copinho descartável para café (aquele usado nos hospitais para colocar comprimidos). Sem comentários...

Edilvo Mota disse...

Marco, seu comentário é pertinente, sim.

Nesses anos me especializei em custos e formação de preços no setor de saúde.

O principal fator de inflação de custos no setor (público e privado)é justamente a ganância, garantida pela falta de fiscalização e o corporativismo.

Não é outro o motivo da constante briga pela reserva do cargo de gestor do SUS, de modo a não criar "problemas" nessa área, como eu criei.