segunda-feira, 10 de maio de 2010

DESRESPEITO EM ALTO E MAU SOM

(Publicado em minha coluna semanal "Painel", no jornal Diário de Araguari, em 11.05.2010)


Inobstante a liberdade de expressão, a convivência em sociedade impõe a observância de limites, notadamente em relação ao respeito aos demais cidadãos. E num país que ainda engatinha em sua democracia, a população desinformada, e em parte mal formada dentro de casa, se arvora num exercício de liberdades que ultrapassa – em muito – a barreira do tolerável.

Como se não bastassem as péssimas condições de trafegabilidade, a desorganização do fluxo, a sinalização inadequada, a imprudência de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres, ainda temos que conviver, no trânsito urbano, com outro dissabor: o maldito som automotivo.

Veículos transformados em boates ambulantes inundam o espaço urbano de barulho, dia e noite. Os inconvenientes bate-estacas, de gosto musical duvidoso, são uma espécie de estupro sonoro, denotando, além do péssimo gosto do conteúdo, um ultrajante desrespeito, em alto e mau som, à nossa saúde auditiva.

Os índices de civilidade de uma cidade, e por conseqüência de um país, dão a exata dimensão do perfil de seu povo. Numa sociedade acostumada a conviver placidamente com a afronta aos mais elementares princípios da cidadania, o barulho automotivo é somente mais um componente do caos urbano.

E, pasmemos todos, nada se faz para coibir essa intolerante prática. Uma espécie de esporte radical praticado por quem necessita extrapolar frustrações através do barulho, certamente por absoluta falta de capacidade de comunicação.

Esses panacas urbanos são fruto da mediocridade e do culto ao supérfluo, incutidos principalmente por programas televisivos que transformam seres humanos em coisa semelhante a bovinos. Idolatria a ex-BBB’s, por exemplo, dão a medida do nível de empobrecimento mental de parte da população. Enquanto isso, a corrupção grassa e, paradoxalmente, os canalhas que usurpam o dinheiro de nossos impostos recebem o mesmo tratamento de estrela dos ex-BBB’s.

Simbolicamente, há dias em Goiatuba, interior de Goiás, uma turma de formandos em Administração e Gestão Empresarial “vendeu”, por 6 mil reais, o patronato de sua formatura a ninguém menos que Delúbio Soares. Ele mesmo, o ex-tesoureiro do PT, responsável por comandar o famigerado mensalão, por cujos dutos foram roubados milhões de reais de dinheiro público (sem que ninguém, nem o presidente da República, soubesse). Corroborando a tese da bovinização geral e da conivência da sociedade com os canalhas, coube a Delúbio o discurso para os formandos e mais de quatrocentos presentes. O tema? ÉTICA!

Durma-se com um barulho desses. Ou, diria: haja “som automotivo”.

Boa semana (em silêncio) a todos.

edilvomota@hotmail.com
http://saudenatela.blogspot.com/

Um comentário:

Marcos disse...

De fato, a bovinização está em curso e, lamentavelmente, os jovens são suas maiores vítimas. Desprovidos de valores éticos mínimos, mal criados pelos pais, deseducados pelas escolas, eles caminham sem rumo entre sons automotivos e consumo de drogas. Claro, existem exceções.
A questão do som automotivo e de outras formas de perturbação da paz pública não vem recebendo o tratamento que merece. Além da omissão dos pais (se é que ainda possuem algum poder frente aos filhos), tem-se a omissão do Poder Público. Órgãos ambientais, Polícia Militar e outros assistem (ou ouvem?), silentes, os decibéis rompendo tímpanos, tirando o sono e ultrapassando as barreiras do bom senso e da civilidade.
O que fazer? Botar a boca no trombone, por incrível que pareça, poderá, neste caso, reduzir o barulho. Reclamemos, então, a quem nos der ouvidos: jornal, rádio, órgãos ambientais... Agora, o ideal seria assumirmos, efetivamente, a nossa missão de pais, tirando da tv, do computador, do traficante a função de "cuidar" dos nossos próprios filhos.